O Evangelho deste domingo apresenta-nos três parábolas, a primeira a parábola do tesouro. Nesta reparemos, que o homem depois de encontrar o tesouro esconde-o novamente. De uma perspetiva moral, procede bem, não se apropriando das riquezas encontradas. E, ao mesmo tempo, mostra-se prudente não deixando à vista aquelas preciosidades, para evitar as tentações que alguém pudesse ter ao deparar-se com elas.

Olhando para os primeiros tempos da Igreja, vemos quanto custou aos judeus e pagãos convertidos “comprar o campo” no qual se escondia o tesouro da salvação. A renúncia exigida era total: família, bens, reputação e até a própria vida. Quão bem procederam, todavia, os que então abraçaram a Fé Católica!

A humanidade atual, qual dos dois papéis representa: o do homem que deseja comprar ou o do que quer vender? Infelizmente, a quase totalidade dos factos nos inclina à segunda hipótese. Muitos de nós, hoje em dia, caímos na insensatez de não mais nos importarmos com esse tesouro de nossa Fé, que tanto custou aos nossos antepassados, e pelo qual o Salvador derramou todo o seu preciosíssimo Sangue no Calvário. Por quão miserável preço vendemos, alguns de nós, esse tão elevado tesouro, tal como fez Esaú com sua primogenitura, ao trocá-la por um mísero prato de lentilhas! Hoje, mais do que nunca, multiplicam-se as “lentilhas” da sensualidade, da corrupção, do prazer ilícito, da ambição, etc.

Aqui também poderia estar incluída a figura do religioso que se deixa arrastar pelos afazeres concretos e vai se olvidando do “tesouro” pelo qual tudo abandonou em seu primitivo fervor.

Essa plenitude de alegria do homem da parábola deve nos acompanhar a vida inteira, sem interrupção, por ser um dos efeitos da verdadeira Fé. A virtude é um dom gratuito; não se compra. No entanto, sua posse contínua e crescente custa esforços de ascese, piedade e fervor. É preciso “vendermos” todas as nossas paixões, caprichos, manias, vícios, sentimentalismos, em síntese, toda a nossa maldade. É o melhor “negócio” que se possa fazer nesta Terra.

Na segunda parábola acerca da pérola, o importante é reter a ideia de que a presente parábola tem o mesmo sentido da anterior, variando apenas a matéria, ou seja, trata-se de, se necessário for, deixar tudo o que se possui com vistas a adquirir esse “tesouro”, ou “pérola”, que nada mais é do que o próprio Reino dos Céus.

Na parábola da rede, Jesus faz alusão ao juízo universal. Usando uma linguagem que inclui panoramas do porvir, ora com tintas sombrias e carregadas de gravidade, ora com fulgores deslumbrantes e maravilhosos. Seus ouvintes, às vezes, enchiam-se de temor e de terror, e, em outros momentos, de consolação e esperança. Pois o pavor é um excelente freio face ao convite do mal, e a esperança é um dos melhores estímulos para nos conduzir a Deus.

Fixemos nosso entendimento e nosso coração nas maravilhas do Reino dos Céus, e conservemos um perseverante terror da eternidade no inferno. Desta forma, estaremos em condições para nos localizar entre aqueles convidados que se encontrarão à direita de Jesus, no Juízo Final!

Termino com as palavras de D. João de Oliveira Matos que foi bispo auxiliar da diocese da Guarda, falecido no Senhor em 1962, cujo processo de canonização está a decorrer: «Então aparecerá o sinal do Filho do Homem que, no dizer dos santos Padres, será o estandarte sacrossanto da Cruz.

E perante essa Cruz bendita, que nos trouxe a redenção e a vida eterna, chorarão todas as tribos da terra.

Na verdade, à vista desse madeiro infamante que servia de suplício e último leito ao Deus feito homem, a humanidade há-de recordar a sua ingratidão vergonhosa, os seus pecados tão grandes e tão numerosos, que deram ao Filho de Deus uma morte tão ignominiosa. E, ao meditar nessa ingratidão, ao pensar nesses pecados, cairão abundantes lágrimas de todos os olhos. Mas para quantos não serão inúteis e vãs essas lágrimas?

Ai daqueles que guardam para o dia das contas finais o seu arrependimento, as suas lágrimas!

Nesse dia, o soberano Juiz, embora abraçado à sua Cruz de misericórdia, já não poderá perdoar; passou o tempo do perdão, chegou a hora da justiça. Daí resulta a ingente necessidade de repararmos, desde já, as nossas ingratidões, os nossos pecados.

E, para a isso nos movermos, bastará apenas fixarmos com atenção o nosso crucifixo e fazermos a nós mesmos estas perguntas de S. Boaventura: “Quem te criou? Quem te redimiu? O que fizeste? A Quem ofendeste?”

A insensatez humana cresce, a ponto de julgar duradoiros, se não eternos, os bens deste mundo.

Se é verdade que o Evangelho e a própria experiência nos pregam, em cada instante, a inconstância dos bens terrenos, a contingência de tudo o que é deste mundo, não é menos verdade que o homem, em geral, não sabe aproveitar essa lição eloquente.

E qual o resultado dessa irreflexão e insensatez?

É que o homem, vivendo só para os bens da terra, que ambiciona e procura, deixa aproximar o fim dos seus dias, com a alma em completa desolação e ruína. Reparemos, enquanto é tempo, por uma confissão bem feita, as ruínas produzidas na alma pelo pecado.»