A que caiu em terra boa é aquela que ouve a palavra e lhe presta atenção, e ela frutifica e produz cem, sessenta ou trinta por um”.

Deus espera que sejamos um terreno que acolha a graça e dê fruto; e produziremos mais e melhores frutos quanto maior for a nossa generosidade com Deus. “A única coisa que nos importa – comenta São João Crisóstomo – é não sermos caminho, nem pedregal, nem cardos, mas terra boa […]. O coração não seja caminho onde o inimigo arrebate, como o pássaro, a semente calcada pelos transeuntes; nem pedregal onde a pouca terra faça germinar imediatamente aquilo que o sol queimará; nem carrascal de paixões humanas e cuidados da vida”

Todos os homens podem converter-se em terreno preparado para receber a graça, qualquer que tenha sido a sua vida passada: o Senhor derrama-se na alma na medida em que é bem recebido. Deus concede-nos tantas graças porque tem confiança em cada um de nós; para Ele, não existem terrenos demasiado duros ou baldios, se se está disposto a mudar e a corresponder: qualquer alma pode converter-se num jardim, ainda que anteriormente tenha sido um deserto, porque a graça de Deus não falta e os cuidados divinos são maiores que os do lavrador mais experiente.

Já que podemos pressupor a graça, o fruto só depende, pois, do homem, que é livre de corresponder ou não. A terra é boa, o semeador o mesmo e as sementes as mesmas; no entanto, como é que uma deu cem, outra sessenta e outra trinta? Aqui a diferença depende também daquele que recebe, porque, mesmo onde a terra é boa, há muita diferença entre uma parcela e outra. Podeis ver que a culpa não é do lavrador, nem da semente, mas da terra que a recebe; e não é por causa da natureza, mas da disposição da vontade.

Examinemos hoje na oração se correspondemos às graças que o Senhor nos vai dando, se aplicamos o exame particular a essas más raízes da alma que impedem o crescimento da boa semente, se limpamos as ervas daninhas mediante a confissão frequente, se fomentamos os atos de contrição, que preparam tão bem a alma para receber as inspirações de Deus. Não podemos conformar-nos com o que fazemos no nosso serviço a Deus, à semelhança do artista que não fica satisfeito com o quadro ou estátua que sai das suas mãos. Todos lhe dizem: – É uma maravilha. Mas ele pensa: – Não, não é bem isto; eu quereria mais. Assim deveríamos nós reagir.

Além disso, o Senhor nos dá muito, tem direito à nossa mais plena correspondência…, e é preciso caminhar ao seu passo. Não fiquemos para trás.